Resenha da graphic novel Maus: A História de um Sobrevivente

Maus: A História de um Sobrevivente (A Survivor’s Tale), é uma graphic novel publicada em 1986, escrita e desenhada por Art Spiegelman, com base nas histórias contadas pelo pai, judeu polonês sobrevivente do holocausto.
 O que o torna especial diante dos infinitos relatos sobre o período, além dos traços marcantes do autor, foi a não omissão de detalhes, lembranças e gestos do pai do ilustrador na tentativa de torná-lo heróico ou qualquer coisa próxima a isso, mantendo-o e a todos que sobreviveram, como figuras essencialmente humanas, com defeitos, qualidades e naturalmente, traumas. 
Além de não esconder detalhes sobre as histórias do pai, Art inclui também uma história que havia publicado anos antes onde ilustra um desabafo do próprio autor em relação ao suicídio da mãe durante sua infância.

Inicialmente publicado aos poucos na revista americana RAW, Maus também foi divido em dois volumes em diversos países, inclusive no Brasil pela editora Brasiliense e finalmente em um volume único, publicado pela Cia. Das Letras em 2005.
 Art Spiegelman ganhou em 1992 o prêmio Pulitzer, criado em 1917 e administrado por uma bancada da univerdade de Columbia, NY.

Um pouco sobre o nome escolhido:
O nome da graphic novel, embora tenha a coincidência de ser uma palavra para descrever um agressor em português, significa “rato” em alemão. Além da aparência superficial, encontramos outra interessante: Há uma espécie egípcia de gato chamada “Mau”. Tido por muitos especialistas como a espécie de gato mais antiga de que se tem conhecimento, muito provavelmente a primeira espécie desse animal doméstico como o conhecemos hoje em dia.
Muitos se tornam entusiastas dessa raça devido ao temperamento e à personalidade deles. Os “Maus”, assim como seus descendentes (convidados para irem juntos com seus donos para as caçadas no Egito), amam brincar de ir pegar a presa ou um brinquedo e trazer para o dono (assim como os cães), na verdade, gostam de qualquer brincadeira que imite a caça e, quando criados em ambientes externos, tornam-se caçadores muito mais eficazes do que outras espécies de gatos. Nem por isso deixam de ser amáveis com seus donos humanos. São gatos extremamente leais e não gostam de estranhos. Uma vez que estejam acostumados com um humano, escolhem ser mimados somente por aquela pessoa e não por qualquer um que o visitar.

Greg Pike pede alguns trocados ao lado de seus animais em frente ao Santa Fe Plaza
quase todas as férias de meio de ano.
Os turistas ficam impressionados
com a tranquilidade com que os arquiinimigos ficam na presença uns com os outros,
inclusive o gato lambendo o rato e ele aceitando o carinho sem medo.

Essa relação do gato como estereótipo dos alemães na guerra é muito interessante. Mais interessante ainda é justamente o duplo sentido (gato e rato) e além disso, se você reparar na semelhança comportamental dessa espécie com os cachorros, é muito grande (um triplo significado para um nome). Intencional ou não, está lá!

Voltando à história:

A ausência de cores dá o tom mórbido necessário para o desenrolar da história.

A história começa com uma construção do contexto pré-guerra, onde o pai conta as histórias de como conheceu a mãe de Art e como eram as relações familiares na época. Os personagens são antropomórficos, judeus retratados como ratos, poloneses como porcos, os alemães como gatos e os americanos como cachorros. Logo no segundo capítulo é possível inclusive encontrar o relato do pai sobre a primeira vez em que viu de perto uma bandeira com a suástica nazista, numa cidade da antiga Tchecoslováquia em 1938.

Aproximando-se do desfecho do livro, o autor descreve-se como pequeno diante de tudo o que o cerca, atualidades e passado, carregando mesmo após a morte do pai, a culpa da sobrevivência e ainda o peso das responsabilidades do homem contemporâneo, sentindo-se objeto de comercialização. 
Pessoalmente, um dos momentos mais marcantes do livro, é uma representação feita por Pavel, psiquiatra do autor, sobrevivente de dois campos de concentração. Na tentativa de deixar clara a maneira como os prisioneiros se sentiam, interrompendo uma conversa, ele dá um susto em Art, dizendo que era dessa maneira que eles se sentiam o tempo todo.

Com a descrição de todas as privações como fome e frio, trocas de guetto, cadastramento para selecionar os aptos ao trabalho, esconderijos, fugas, Auschwitz e até aliados na base de trocas de valores, o leitor tem a oportunidade de experimentar com nitidez as angústias passadas e refletir acerca do conteúdo adaptando-o à nossa realidade e contextualizá-lo diante dos atuais preconceitos e outros problemas étnicos que geram conflitos ao redor do mundo.

Maus é o tipo de livro que compartilha esta experiência com extrema clareza, tornando impossível ao leitor ignorar o conteúdo apresentado, deixando a opção de torná-lo útil atuando como agente de mudança de nossa realidade onde cada um pode fazer a sua parte para que um holocausto não venha à tona novamente, em maior ou menor escala, diante de toda ignorância vigente. Em outras palavras, embora a paz seja um objetivo utópico, pela própria natureza do ser humano, que tal reservarmos um tempo para refletir, como o exemplo dos animais de Greg Pike acima?

O Umberto Eco conseguiu resumir muito bem:

Maus é um livro que ninguém consegue largar. Quando os dois ratos falam de amor, você se emociona; quando eles sofrem, você chora. – Umberto Eco

Resenha: Taimã Ramos
Twitter: @tai_ramos
Colaboração (pesquisa sobre o nome: Alonso Lizzard)

Autor: Art Spiegelman
Número de páginas: 296
Formato: (16 x 23 cm)
Editora: Companhia das Letras
Acabamento: Brochura com lombada quadrada

Foto: Greg Pike, tirada por: Christopher Crawford

Há um podcast legal sobre Maus aqui.

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9 comentários em “Resenha da graphic novel Maus: A História de um Sobrevivente

  1. Ana Death Duarte disse:

    Fiquei com vontade de ler agora… Mas imagino que vou chorar… :/

  2. Victor Hugo disse:

    Já conhecia o Art Spiegelman, apesar de nunca ter lido Maus. Pois é, nunca me interessei pra comprar e talz, pois estou velho já e como colecionador de quadrinhos velho, sempre gosto de voltar ao lugar seguro como Sandman, Hellblazer, etc. Contudo, essa informação sobre essa relação nebulosa de Gato/Rato na guerra era totalmente desconhecida por mim, até que agora estou pensando outra vez sobre a possibilidade…

  3. […] This post was mentioned on Twitter by Ao Sugo. Ao Sugo said: RT @icultgeneration: Comentem e RT pessoal: Resenha da graphic novel #Maus, uma crítica séria ao #holocausto http://bit.ly/aRHDb0 […]

  4. homero luz disse:

    Me deu vontade de conhecer adoro essas histórias de guerras, principalmente pelo grande pote de referencias que elas são, todas guerras são interligadas e não tem mocinhos no meu modo de ver. e que gato lindo quero um desses na casa dos meus pais

  5. Tai disse:

    Achei os adendos sobre o nome muito legais, não tinha pesquisado, muito interessante!
    Gostei da finalização com o Umberto Eco e recomendo Maus a todos! 😀

  6. […] blog iCult Generation resenhou a graphic novel Maus, de Art Spiegelman. A Julianna, do Caleidoscópicas, falou sobre A […]

  7. Garcinauta disse:

    Maus é excelente.
    Mandou bem Tai.

  8. murilo disse:

    O tipo de gibi que consegue superar muitos livros lançados atualmente.

  9. […] Artigos relacionados aqui no iCulGen: Maus – A história de um sobrevivente […]

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